Sílvio Fabiano: seis anos de carroça, meia dúzia de bananas para levar 600 quilos de sucata, oito filhos com cinco mulheres
Esta revista vai pro lixo. Não, não é a nossa vontade. Mas que demore um mês, um ano ou um século (como este repórter considera justo), esta revista vai sair das suas mãos para ir às mãos de outra pessoa, de outra pessoa, outra, e outra e mais outra... até talvez chegar a uma máquina de reciclagem de papel.
Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, MNCMR, só em São Paulo os catadores ambulantes formam um exército de 20 mil pessoas – em todo o Brasil, as estimativas variam entre 300 mil e 1 milhão.
Nem um pouco feliz, Dino, o sarado Lee Perry do Glicério, reclama do rapa da polícia; Heleno “Fela”Carneiro e seu Carro do Malassombro: “Se o Kassab me der R$ 15 mil pela minha carroça, eu volto pra Palmares”
Vida bandida X trabalho cooperado O orgulho é a marca distintiva desses modernos condutores de jiriquixá reciclável. Talvez pelo fato de o carroceiro habitar o primeiro estágio de cidadania: a carroça é seu primeiro zero à direita. Muitos são recém-desempregados, ex-moradores de rua, miseráveis, mendigos ou detentos que acabaram de cair na rua e não conseguem nenhum outro tipo de serviço. “O carroceiro é um profissional que não passa por nenhuma entrevista de emprego, não arranja nenhum trabalho remunerado nem na economia formal nem na informal. Por outro lado, ele é autônomo, dono de seu ganho, e não vive à mercê dos outros, como um pedinte”, conceitualiza Sebastião Nicomedes, 39, ex-catador e hoje escritor, autor do livro “Cátia, Simone e Outras Marvadas” (Dulcinéia Catadora), além da peça “Diário de um Carroceiro”, que está sendo transformada em roteiro de filme por Lula Maluf (acredite, é esse mesmo o nome do cineasta – tudo se recicla...). “Às vezes o cara sai da cadeia e, ainda que tenha habilidades, a única coisa que sobra pra ele é uma carroça. E ainda tem que correr do rapa policial”, afirma Sebastião.
Século 21 convive com um novo perfil de morador de rua
Cerca de 1% da população de uma cidade do porte de São Paulo, com aproximadamente 18 milhões de habitantes, vive em situação de rua. Mas o perfil do morador de rua atual não é mais representado pela figura do imigrante, geralmente negro, com pouca escolaridade e desempregado. Aliás, não há perfil homogêneo para traçar a população que vive nas ruas, como define Aldaíza Sposati, secretária de Serviço e Assistência Social do Município de São Paulo.
Apesar de fatores como demência, abandono, drogas e álcool serem responsáveis por levarem algumas pessoas à viverem nas ruas, segundo Aldaíza, a exclusão social e econômica ainda é a grande vilã. O tema foi amplamente debatido durante o Seminário Internacional “Rompendo a barreira da exclusão: populações de rua e políticas públicas”, realizado pela Faculdade de Saúde Pública da USP, nesta última segunda-feira, 25/08.
Marcio Pochman, secretário da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade do Município de São Paulo, enfatizou que existe hoje um novo tipo de morador de rua, formado por pessoas que já tiveram carteira de trabalho assinada, foram chefes de família e são brancos. “Não é difícil também encontrar pessoas que falam uma segunda língua ou que têm diploma universitário”, lamenta.
Segundo Pochman, o atual modelo econômico neo-liberalista é perverso quando o assunto é exclusão social. “A vítima da exclusão social, inclusive aquela que acaba indo morar nas ruas, torna-se a culpada pelo seu desemprego. Para os padrões atuais, a pessoa está nessa situação porque não preparou para o mercado, porque não fez direito a lição de casa”, afirma.
Pior: para ele, esse mesmo modelo econômico “impede a inclusão social, principalmente pelo mercado de trabalho formal, que está em crise”, afirma.
Enquanto a situação não é apaziguada, tentativas de amenizar o problema dos moradores de rua pelo visto não faltam. Segundo Aldaíza Sposati, a prefeitura de São Paulo tem desenvolvidos programas de acolhimento e instalação de albergues em diferentes pontos da cidade.
Entretanto, os programas mais eficientes são aqueles que buscam a integração social dos moradores de rua por meio de projetos que incentivem a criação de cooperativas de trabalho. “Os catadores têm se mostrado uma maneira eficiente de prover pelo menos uma renda para os moradores de rua. O problema é a intervenção de terceiros que oferecem o serviço visando lucro próprio”, afirma Aldaíza.
Participaram também do debate o Dr. Gonzalo Vecina Neto, secretário da Saúde Pública do Município de São Paulo, além de representantes de organizações internacionais do Canadá, Japão, França e Estados Unidos envolvidos na questão.
Cadernos de Saúde Pública ISSN 0102-311X versão impressa Resumo
CARNEIRO JR., Nivaldo e SILVEIRA, Cássio. Organização das práticas de atenção primária em saúde no contexto dos processos de exclusão/inclusão social. Cad. Saúde Pública, nov./dez. 2003, vol.19, no.6, p.1827-1835. ISSN 0102-311X.
Este artigo apresenta a experiência de organização de um serviço de saúde em atenção primária, o Centro de Saúde-Escola Barra Funda na cidade de São Paulo, que privilegiou o acesso dentro dos princípios da eqüidade e da discriminação positiva, criando condições de incorporar alguns segmentos que vivem na área central da cidade de São Paulo. São eles, os moradores de rua, as trabalhadoras do sexo e a população que habita em favelas. Promove, desse modo, uma reflexão acerca das variadas formas de vida social encontradas em áreas centrais de centros urbanos, em particular aquelas que vivem à margem dos processos de inclusão e sofrem graus acentuados de vulnerabilidade e marginalidade no acesso a bens e serviços. Também aponta para a possibilidade de se implementar políticas de saúde que promovam intervenções eficazes junto a segmentos sociais normalmente excluídos dos serviços de saúde, efetivando dessa forma o princípio da universalização.
Palavras-chave : Políticas de Saúde; Cuidados Primários de Saúde; Serviços de Saúde.