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Domingo, 22 de Julho de 2007
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Arte & Cultura| 10/05/2007 | Copyleft
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REVITALIZAÇÃO PELA CULTURA

Construindo significados para o centro degradado das metrópoles

De que maneira a cultura pode ser utilizada para ressignificar territórios? Como utilizar práticas culturais para o desenvolvimento humano e social de regiões degradadas como o centro de São Paulo?

Georgia Nicolau*

O centro de uma cidade é, ou deveria ser, o lugar da democracia por excelência, local da prática da convivência com a diferença. Ocorre que vivemos em uma era na qual, cada vez mais, os indivíduos - ou aqueles que “podem”- confinam-se em bairros, condomínios e territórios onde apenas os seus semelhantes têm lugar. Qualquer tipo de diferença, marginalidade que seja, é prontamente eliminada por meio da distância "segura" promovida por seguranças particulares, câmeras de vigilância, ou até mesmo atos violentos.

De que maneira a cultura pode ser utilizada para modificar os territórios, resignificando-os? Como utilizar práticas culturais para o desenvolvimento humano e social de uma região como o centro de São Paulo? Na sexta-feira, 30, uma fria e caótica véspera de feriado, cerca de 30 pessoas estiveram no debate “Políticas de Cultura e Desenvolvimento Humano no centro de São Paulo”, promovido pelo Instituto Pólis para pensar essa e outras questões.

Participaram da conversa o urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano; Beatriz Kara José, também urbanista e autora do livro Políticas Culturais e Negócios Urbanos – A Instrumentalização da Cultura na Revitalização do Centro de São Paulo; Rodolfo Garcia Vázquez diretor teatral do Grupo Satyros; e Sebastião Nicomedes, ator, dramaturgo e integrante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua. O mediador foi Altair Moreira , integrante do Fórum Intermunicipal de Cultura (FIC).

A discussão na calçada
O ex-morador de rua Sebastião Nicomedes, o Tião, expôs como, através do estímulo do imaginário, ele e seus colegas conseguiram criar um canal de comunicação com outros moradores de rua, para discutir questões pessoais e coletivas.“Nós fazíamos nossos seminários [fóruns de população de rua] com mais adesão porque descobrimos os capoeiristas que têm no meio da população, músicos, gente que declama poesias. Com isso, criou-se a possibilidade de discutirmos coisas sérias de uma forma mais agradável, não tão agressiva, não tão deprimente como costumava ser.” A maneira de atrair as pessoas, diz Tião, era ir “com uma carroça equipada de som aos moradores de rua. Eu levava os bonecos e conseguíamos, com aquelas pessoas, senão discutir políticas, direitos, que a maioria nem tava mais sabendo o que era isso, mas levamos alegria, contar as histórias, lembrar quem são, de onde veio, sentir saudades, reconstruir vínculos. Com os bonecos eles conversavam, com a gente não.”

Tião denunciou ainda o crescente desaparecimento de artistas de rua do centro.“A GCM [Guarda Civil Metropolitana] conseguiu roubar o espetáculo, fazer um show melhor do que os artistas”. Tião acredita que o cerne do problema está no público das políticas culturais. “Cultura é pra quem tem, pra quem sabe, pra quem pode.” Ao priorizar espaços fechados , criam-se empecilhos para a troca e o acesso às várias dimensões das práticas culturais. “É reflexo do mundo inteiro, vale quem tem dinheiro, vale quem tem renda, vale quem gera lucro. Quem vai associar uma marca a um morador de rua?”

SA dos os imóveis que possam gerar renda, o que significa que a população que reside na região será obrigada a se mudar porque não terá mais condição de pagar pelo valor do aluguel.

Recriar sentidos
Ficou a cargo de Kazuo Nakano construir formulações a partir da fala de seus colegas. “Eu observei dimensões práticas da realidade sendo mostradas. E práticas criam sentidos e criam territórios.” Nakano questionou então seus companheiros, sobre quais maneiras a recriação de sentido pode resultar numa delimitação política de afirmação e resistência. "Quais possibilidades e dimensões de resistência a um processo de disputa por definir o sentido sócio-político do território do centro? Diante das forças que existem em disputa nesse território, é possível criar processos de resistências articulados com processos de criação?"

No dicionário, a palavra “resistir” possui vários significados. Entre eles está "não ceder, opor-se, recusar-se, sobreviver, durar, oferecer resistência”. Para Tião, recém-saído da rua, resistir é sobreviver, existir a despeito da experiência do desprezo e da perda total da condição humana. Já Rodolfo não gosta da palavra. Prefere outras, como impor, propor, atuar. Beatriz tem esperança de que a brecha aberta pelo fato de o capital privado não ter comprado a idéia de revalorização do centro possa ser aproveitada. Já Kazuo acredita que a resistência pode assumir um significado vivo, enquanto princípio de vida e criação de novas – e mais promissoras - formas de vida, através da viabilização de novas práticas sociais e existenciais.

C

Escrito por nicomedesoliveira às 12h36
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