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VIAGEM AO PAÍS DOS RAIMUNDOS
''A melhor maneira de explicar isso a vocês é dizendo que, por um ou dois segundos, me senti como se em vez de ir para o centro de um continente, estivesse de partida para o centro da Terra''. (Coração das Trevas, Joseph Conrad)
Esse é o sentimento que ecoava, em mim e no Lilo (o fotógrafo Maurilo Clareto), quando penetramos na boca do Riozinho do Anfrísio, que apesar desse nome meigo é um igarapé selvagem. Troncos formavam cavernas sobre a água, um casal de ariranhas mergulhou bem na nossa frente e milhares, milhões talvez, de borboletas amarelas acompanhavam o percurso labriríntico. Parecia que tínhamos sido engolidos, numa piscada de distração, para uma dimensão desconhecida. Sentia como se mergulhasse cada vez mais para dentro e para dentro da terra. Por todo o tempo me ardia no peito a certeza de que, por melhor que eu conseguisse escrever, seria incapaz de alcançar a dimensão do que vi - e vivi.
Essa é uma angústia permanente, a da redução da vida quando é confinada em palavras. Mesmo quando as palavras são exatas, como no caso do trecho do Conrad aí de cima. Como testemunhar a luta de um punhado de brasileiros esquecidos, invisíveis e terrivelmente frágeis muito depois do fim do mundo e contar isso em alguns parágrafos, páginas? Poderia começar assim: "Levamos quatro dias navegando 12 horas por dia e dormindo na floresta para chegar à boca do Riozinho". É verdade, mas não é nada. Ou: "O povo do Riozinho está ameaçado de morte pelos grileiros que cobiçam o mogno e o ouro da terra". É um fato e não é nada. Não conta do que significa para aqueles homens e mulheres isolados, dia após dia, estarem ameaçados de perder tudo o que conhecem, inclusive a vida. Essa mesma angústia eu sentia quando as freiras do colégio em que eu me alfabetizei diziam: "Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou". Como assim?!
Primeiro, dizer que fui para a Amazônia é o mesmo que dizer que fui aos anéis de Saturno. Mas qual deles? São muitas florestas, gentes e realidades diferentes dentro de uma mesma convenção geopolítica. O que importa ressalvar aqui é que, seja qual for das Amazônias, é sempre uma jornada de risco. Não falo da dificuldade do transporte, dos índios, dos carapanãs (uns mosquitos que têm o desplante de ignorar repelentes e picam no entardecer e no amanhecer, inclusive através da roupa, abrindo uma trilha de inchaços no corpo). Falo do maior risco para um repórter, que é errar o tom. Nem dá para ser babão e achar que tá no éden perdido, nem dá para ser blasé e achar que é um pouco mais do mesmo. Tem de se deslumbrar sem ser deslumbrado. Uma linha bem estreita.
Por isso fico meio sem graça de sair contando minhas aventuras na primeira pessoa. Não quero que fique parecendo que me acho alguma Indiana Jones. Depois de 10 dias convivendo com o Aldo e com o seu Bené, o piloto e o proeiro da voadeira que nos carregou pelo rio, e em seguida com o povo valente do Riozinho do Anfrísio, sei muito bem que todas as minhas seis viagens a Amazônia não valem um dia deles. Os caras são brilhantes. Conseguem enxergar ovo de tracajá onde eu só vejo areia, pedra pontuda onde eu só enxergo água, chuva onde eu só vejo azul. (Depois de testemunhar o cotidiano desse povo, se eu tivesse alguma pretensão de me sentir uma Crocodila Dundee, tinha afundado no brejo. Eu mal conseguia amarrar a rede num pedaço de pau na hora de dormir…).
O seu Bené, então, que é o legítimo homem amazônico, a quem prometi escrever um livro contando a vida, merecia uma estátua. Vida sofrida, como é a de todos, mas de uma intensidade… Nas suas andanças como seringueiro, mateiro, gateiro, cafetão, garimpeiro, seu Bené espiou mais para dentro do bicho homem do que a sanidade permite. Na última noite da viagem, tivemos de pernoitar num lugar de mata muito fechada porque o motor da voadeira quebrou antes que a gente chegasse no pouso pretendido. Ninguém se apavorou, mas eu confesso que fiquei com vontade de dormir de mão com o Lilo, caso a minha reputação de durona permitisse. Eu olhava aquele barranco de floresta fechada que se erguia sobre a minha pobre rede e ficava imaginando o que diabos havia ali atrás. Deixamos uma velinha acesa quase a noite toda pra dar uma animada.
Mas enquanto esperávamos o peixe cozinhar, seu Bené ia contando uma de suas histórias de garimpo. Dessa vez, foi um avião que caiu numa das pistas clandestinas. Seu Bené ajudou a arrancar os mortos e os vivos dos destroços. Eu achei até que a história estava meio fraca, com míseros dois mortos - na anterior ele tinha despachado uns 40 pro inferno. Mas eu não sabia de nada. "O mecânico queimou todinho. Só uma parte da polpa da bunda ficou assada", desfiou ele. "Não é que o meu colega comeu a bunda do sujeito?" Nós todos logo pensamos que era um "comer" no sentido bíblico do termo (o que já seria, digamos, um absuuuurdo). Seu Bené esclareceu: "Passou a faca e comeu. Disse que era gostoso. Aquele cabra tinha um estômago que vou te dizer."
O pior é que quando ele chegou nessa parte eu já estava engolindo a janta-almoço (só fazíamos uma refeição por dia para não perder tempo, depois que o sol se punha). Ajeitei tudo com mais um punhado de farinha. Aliás, viciei naquela farinha grossa, amarela, capaz de quebrar um dente facinho. Eu só entendi meeesmo o espírito da coisa depois da primeira ameaça de tempestade. Uma coisa feia, o rio virando mar, nada em nenhuma das margens parecido com abrigo, o caminho cheio de pedras e as nuvens engordando de escuridão. Eu pensando que os caras tinham um plano B para esse tipo de situação. Quando o céu finalmente caiu roncando sobre o mundo, só ouvi o grito de desespero: "Não deixa molhar a farinha!". Nessa hora, todas as minhas pretensões de ser tratada como princesa, assim, na condição de única moça do grupo, foram literalmente por água abaixo. Eu que me ensopasse toda, já a farinha…
É um povo que quando diz o número de filhos número de filhos conta os mortos. E quando conta os mortos conta que morreram da malaria.E morreram só porque não há remédio, porque basta remédio para não morrer de malária. Mas esse povo, quando precisa de remédio que não tem no mato, quando precisa de médico e não de benzedeira, tem de ir até o posto de saúde da Cachoeira Seca, a terra indígena mais próxima, a dias de canoa de distância. |