Fonte: O Tempo
de Belo Horizonte
Pessoas que passam anos morando em via pública convivem com desconfiança, medo e dificuldade de se relacionar
VALQUIRIA LOPES
Dos tempos dos banhos com água fria dentro de uma geladeira inutilizada e da sensação de quase ter dado à luz um bebê no cruzamento da rua da Bahia com avenida Álvares Cabral no centro de Belo Horizonte, a ex-moradora de rua Elizângela Cândida da Silva, 30, guarda bem poucas lembranças. Apesar de não achar que a Febem, entidade para onde foi levada em 1982, aos 5 anos de idade, fosse o melhor lugar para se viver, ela reconhece que deveria ter aproveitado a oportunidade para não ter sofrido tanta violência, fome e discriminação como o que passou pelos cantos da cidade.
Assim como Elizabete, ainda são muitas as pessoas que têm sido marcadas pela rua. Seja por cicatrizes na pele, marcas no emocional ou pelas tatuagens que vários carregam no corpo, pessoas com essa trajetória acabam se tornando filhos da rua e desse espaço tiram sua sobrevivência. Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social mostram que em 2005 existiam 1.239 moradores de rua na capital.
Desse total, 1.164 eram adultos e 75, crianças. Embaixo de marquises e viadutos ou simplesmente vagando pela cidade, indivíduos que deixaram o lar por fatores como violência doméstica, criminalidade ou rompimento familiar são forçados a conviver com atrocidades nas vias públicas. Entre poucos, os que conseguem retomar as rédeas da vida permanecem com traumas como desconfiança e medo.
Regras
De acordo com Fabrício Ribeiro, psicólogo e professor do Centro Universitário Newton Paiva, a primeira questão que afeta quem mora na rua é a violência. "Ela pode ser de todo tipo. Seja a violência no próprio corpo, como os abusos sexuais ou brigas, e até a violação dos direitos, de não poder ter acesso a um lugar para morar, tomar banho ou dormir." Conforme Ribeiro, um dos agravantes dessa falta completa de cidadania é a dificuldade que as pessoas têm de permanecer em um abrigo e em uma casa. Eles não conseguem se adaptar, pois estão acostumados com a ausência de regras."
Outros problemas que o psicólogo enumera são a exposição a doenças e o envolvimento com as drogas. No caso das enfermidades, Ribeiro salienta que, como eles não lançam mão dos serviços de saúde pública, acabam atingindo quadros cada vez piores. Com as drogas, o especialista afirma que o relacionamento é um fator secundário, pois elas podem servir como anestésico para ajudar a tratar o sofrimento de morar na rua.
"A droga os mantém desconectados e ajuda a lidar com a fome e com o frio, por exemplo." Para a gerente de promoção social da Secretaria Municipal de Assistência Social, Sandra Silar, um dos grandes problemas que afetam o morador de rua é a queda da auto-estima. Segundo Sandra, quando ele vai morar na rua é porque já passou por processos difíceis e chegou ao seu limite. Ela afirma que, submetido a questões como abuso sexual, exclusão social e dependência por drogas, o morador de rua acaba tendo as capacidades mental e emocional afetadas.
Sufocados
"Em função do grande uso de álcool e droga, perdem a referência. Não percebem mais a questão do tempo e nem mesmo se lembram o que comeram durante o dia. Ainda que saiam das ruas, eles têm dificuldades de lidar com a violência. Quando levados para uma casa, se sentem sufocados pelas paredes e têm complicações para tratar da organização do lar e do gerenciamento dos serviços de saúde e de educação", afirma Sandra.
Ribeiro completa ao dizer que o principal trauma de quem saiu da rua é a paranóia que causa desconfiança, medo, dificuldades de se relacionar e de manter a calma em uma situação inesperada. "Ele pode desenvolver um único tipo de saída frente a uma situação de angústia e passa a responder com os recursos que tem."
Para o psicólogo, essas pessoas geralmente vão para as ruas por passarem por vários problemas em casa e portanto os casos não podem ser vistos apenas como uma invasão do espaço público ou como um recorte congelado dentro da cena urbana. Programas de assistência são oferecidos pela prefeitura. Interessados podem ligar para 3277-4568.

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