carta aberta em defesa da população de rua,rio de janeiro
Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2009. Prezado(a) editor(a), 2009 não é um Novo Ano para a população em situação de rua do Rio de Janeiro. Do ponto de vista das ações das prefeituras do Rio e de Niterói, os novos prefeitos e suas equipes chegaram com práticas que se distanciam da possibilidade da inclusão dessa população, como as ações de recolhimento para abrigos e albergues. No Brasil, a sanatorização e o afastamento forçado dos centros urbanos são características dos procedimentos dos governos desde o início do século XX e se repetem, ciclicamente, de formas variadas, até hoje, sem solucionar a complexidade desse problema social. Mas afinal, qual é o horizonte de inclusão que essa população, privada dos seus direitos de cidadania, que faz das ruas seu local de moradia e sustento, encontra nesses abrigos públicos? Na maioria das vezes eles são verdadeiros depósitos de seres humanos, cheios, com condições insalubres, onde os usuários são submetidos a dezenas de regras – que evidentemente têm o objetivo de manter a ordem -, com poucas oportunidades de expressão e onde é comum encontrar um comportamento autoritário entre os funcionários. Claro que há exceções. Deixando um pouco de lado o debate sobre as condições socioeconômicas que provocam a ida das pessoas para as ruas, é possível afirmar, categoricamente, que as ações de "higienização" comprovadamente não funcionam. Que os novos gestores públicos perguntem isso à maioria das pessoas envolvidas, profissional ou voluntariamente, com a população em situação de rua, entre técnicos e voluntários de organizações da sociedade civil, de entidades religiosas, de assistência social, funcionários públicos e pessoas com trajetória de vida nas ruas. No Rio de Janeiro, a problemática da rua fez surgir o Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua, constituído por pessoas e instituições envolvidas direta ou indiretamente com essa população. Desde o ano 2000, essa instância vem acompanhando os trabalhos junto a esse grupo social, trocando experiências e, principalmente, construindo uma proposta de política pública, de forma ampla e participativa, que vá ao encontro da complexidade do problema e das demandas da própria população em situação de rua. É consenso no Fórum Permanente de que o papel dos abrigos e albergues precisa ser revisto. Além disso, é notória a falta de intersetorialidade no âmbito dos governos, pois não há convergência das ações de cada secretaria/órgão, com suas contribuições específicas, para tratar de um problema que antes de tudo é social, e não de ordem pública. O Fórum Permanente tem propostas para os novos prefeitos. Elas foram debatidas em encontros, pesquisas e em diversos seminários realizados nesses últimos oito anos. O último deles, o quinto, realizado em 18 de novembro de 2008 no auditório da OAB-RJ, teve justamente esse objetivo: discutir as bases da política pública para a população em situação de rua no Estado do Rio de Janeiro. Representantes de 15 cidades fluminenses contribuíram para a construção de um documento, com diretrizes para as áreas de assistência social, educação, cultura, saúde, trabalho e emprego, moradia, direitos humanos e segurança pública. O documento será a contribuição do Estado do Rio de Janeiro para a Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua, que vem sendo elaborada pelo Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), instituído por decreto presidencial em 25 de outubro de 2006. O GTI é composto por membros do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério das Cidades, Ministério da Educação, Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Justiça, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Defensoria Pública da União, além da participação de representantes do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), da Pastoral do Povo da Rua e do Colegiado Nacional dos Gestores Municipais da Assistência Social (CONGEMAS). Na atual conjuntura não se pode mais admitir a reiteração do círculo vicioso de práticas que se esgotam em si mesmas, quando de fato existem propostas consistentes em debate na sociedade. Os novos prefeitos e suas equipes assumem os governos num momento propício para lidar com o tema de forma qualificada, mas é preciso que estejam realmente dispostos a dialogar publicamente e encarar o problema com investimento em ações continuadas e de menor visibilidade. Atenciosamente, Coordenação Executiva do Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua do Rio de Janeiro (em ordem alfabética): - Hilda Correa, Assistente Social, Especialista em Políticas Públicas - Irmã Maria Elci Zerma, Presidente da Associação Solidários Amigos de Betânia - Jorge Vicente Muñoz, Pesquisador da Nova Pesquisa e Assessoria em Educação - Sheyla Miranda, Psicóloga do Movimento de Amor ao Próximo Subscrevem conjuntamente: - Conceição Oliveira Silva, Assistente Social da Obra Social Santo Tomás de Villa Nova - Irmão Joab José, Responsável pela Toca de Assis (Madureira) - Jane Portella, Assistente Social - José Martins Cipriano e Alexandre Duque, Presidente e Auxiliar-administrativo, respectivamente, da Associação Maranathá do Rio de Janeiro - Luciano Rocco, Presidente da Organização Civil de Ação Social/Revista OCAS - Marcelo Jaccoud da Costa, Assistente Social e Autor do Blog da Rua - Margarida Pressburger, Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Rio de Janeiro (OAB/RJ) - Marina Araújo e Terezinha Nascimento, Presidente e Gerente de Projetos, respectivamente, do Banco da Providência/Projeto Emaus - Padre Manoel de Oliveira Manangão, Vigário Episcopal para a Caridade Social da Arquidiocese do Rio de Janeiro - Walter Agostinho da Silva, Integrante da Coordenação Nacional do Movimento Nacional de População de Rua Contato do Fórum Permanente: (21) 2516 2037, de segunda a sexta, de 10h às 12h.
Escrito por nicomedesoliveira às 15h36
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Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2009. Prezado(a) editor(a), 2009 não é um Novo Ano para a população em situação de rua do Rio de Janeiro. Do ponto de vista das ações das prefeituras do Rio e de Niterói, os novos prefeitos e suas equipes chegaram com práticas que se distanciam da possibilidade da inclusão dessa população, como as ações de recolhimento para abrigos e albergues. No Brasil, a sanatorização e o afastamento forçado dos centros urbanos são características dos procedimentos dos governos desde o início do século XX e se repetem, ciclicamente, de formas variadas, até hoje, sem solucionar a complexidade desse problema social. Mas afinal, qual é o horizonte de inclusão que essa população, privada dos seus direitos de cidadania, que faz das ruas seu local de moradia e sustento, encontra nesses abrigos públicos? Na maioria das vezes eles são verdadeiros depósitos de seres humanos, cheios, com condições insalubres, onde os usuários são submetidos a dezenas de regras – que evidentemente têm o objetivo de manter a ordem -, com poucas oportunidades de expressão e onde é comum encontrar um comportamento autoritário entre os funcionários. Claro que há exceções. Deixando um pouco de lado o debate sobre as condições socioeconômicas que provocam a ida das pessoas para as ruas, é possível afirmar, categoricamente, que as ações de "higienização" comprovadamente não funcionam. Que os novos gestores públicos perguntem isso à maioria das pessoas envolvidas, profissional ou voluntariamente, com a população em situação de rua, entre técnicos e voluntários de organizações da sociedade civil, de entidades religiosas, de assistência social, funcionários públicos e pessoas com trajetória de vida nas ruas. No Rio de Janeiro, a problemática da rua fez surgir o Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua, constituído por pessoas e instituições envolvidas direta ou indiretamente com essa população. Desde o ano 2000, essa instância vem acompanhando os trabalhos junto a esse grupo social, trocando experiências e, principalmente, construindo uma proposta de política pública, de forma ampla e participativa, que vá ao encontro da complexidade do problema e das demandas da própria população em situação de rua. É consenso no Fórum Permanente de que o papel dos abrigos e albergues precisa ser revisto. Além disso, é notória a falta de intersetorialidade no âmbito dos governos, pois não há convergência das ações de cada secretaria/órgão, com suas contribuições específicas, para tratar de um problema que antes de tudo é social, e não de ordem pública. O Fórum Permanente tem propostas para os novos prefeitos. Elas foram debatidas em encontros, pesquisas e em diversos seminários realizados nesses últimos oito anos. O último deles, o quinto, realizado em 18 de novembro de 2008 no auditório da OAB-RJ, teve justamente esse objetivo: discutir as bases da política pública para a população em situação de rua no Estado do Rio de Janeiro. Representantes de 15 cidades fluminenses contribuíram para a construção de um documento, com diretrizes para as áreas de assistência social, educação, cultura, saúde, trabalho e emprego, moradia, direitos humanos e segurança pública. O documento será a contribuição do Estado do Rio de Janeiro para a Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua, que vem sendo elaborada pelo Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), instituído por decreto presidencial em 25 de outubro de 2006. O GTI é composto por membros do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério das Cidades, Ministério da Educação, Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Justiça, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Defensoria Pública da União, além da participação de representantes do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), da Pastoral do Povo da Rua e do Colegiado Nacional dos Gestores Municipais da Assistência Social (CONGEMAS). Na atual conjuntura não se pode mais admitir a reiteração do círculo vicioso de práticas que se esgotam em si mesmas, quando de fato existem propostas consistentes em debate na sociedade. Os novos prefeitos e suas equipes assumem os governos num momento propício para lidar com o tema de forma qualificada, mas é preciso que estejam realmente dispostos a dialogar publicamente e encarar o problema com investimento em ações continuadas e de menor visibilidade. Atenciosamente, Coordenação Executiva do Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua do Rio de Janeiro (em ordem alfabética): - Hilda Correa, Assistente Social, Especialista em Políticas Públicas - Irmã Maria Elci Zerma, Presidente da Associação Solidários Amigos de Betânia - Jorge Vicente Muñoz, Pesquisador da Nova Pesquisa e Assessoria em Educação - Sheyla Miranda, Psicóloga do Movimento de Amor ao Próximo Subscrevem conjuntamente: - Conceição Oliveira Silva, Assistente Social da Obra Social Santo Tomás de Villa Nova - Irmão Joab José, Responsável pela Toca de Assis (Madureira) - Jane Portella, Assistente Social - José Martins Cipriano e Alexandre Duque, Presidente e Auxiliar-administrativo, respectivamente, da Associação Maranathá do Rio de Janeiro - Luciano Rocco, Presidente da Organização Civil de Ação Social/Revista OCAS - Marcelo Jaccoud da Costa, Assistente Social e Autor do Blog da Rua - Margarida Pressburger, Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Rio de Janeiro (OAB/RJ) - Marina Araújo e Terezinha Nascimento, Presidente e Gerente de Projetos, respectivamente, do Banco da Providência/Projeto Emaus - Padre Manoel de Oliveira Manangão, Vigário Episcopal para a Caridade Social da Arquidiocese do Rio de Janeiro - Walter Agostinho da Silva, Integrante da Coordenação Nacional do Movimento Nacional de População de Rua Contato do Fórum Permanente: (21) 2516 2037, de segunda a sexta, de 10h às 12h.
Escrito por nicomedesoliveira às 15h35
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