Eliane Brum parece ser daquelas pessoas cujo texto carrega o seu próprio DNA, sua personalidade, ou outro nome qualquer que se queira dar àquela capacidade que certos autores possuem de dizer “este texto aqui é meu” com a mesma propriedade com que diriam “este coração aqui dentro é meu”. Parece sim, e causa tão forte esta impressão que embora eu a tenha visto apenas através de reportagens que escreveu e de alguns curtos emails que trocamos antes dela embarcar rumo ao norte do país com a caravana Rumos, ainda assim foi bem fácil encontrar gente que a viu um pouquinho mais de perto e concorda.
A jornalista ministra hoje em Rio Branco (AC) a oficina Em Busca do Personagem: Um Olhar Singular, que também levará a Porto Velho (RO), Macapá (AM), Boa Vista (RR) e Belém (PA). Eliane é repórter especial da revista Época, tem uma história de 20 anos na profissão e mais de 40 prêmios de reportagem ao longo deles, entre os quais o Esso, o Vladimir Herzog e o da Sociedade Interamericana de Imprensa. É também autora dos livros O Olho da Rua, A vida que ninguém vê e do esgotadíssimo Coluna Prestes: O avesso da lenda, além de co-diretora e co-roteirista do documentário Uma história severina. No corre-corre do fim de semana entre o fechamento da revista e a viagem, falou a este blog sobre a participação no Rumos, o carinho pela região Norte e coceiras na alma:
Como se deu o contato com o Rumos Itaú Cultural?
É minha primeira particição no Rumos como “oficineira”. Sempre achei o Rumos um projeto muito bacana, mas só acompanhava pela programação. Agora, acho que sou uma “rumeira”. E eu gosto muito de todas as possibilidades que essa palavra contém.
Como surgiu a proposta da oficina?
Em 2006 (ou 2007, não tenho certeza), eu participei de um bate-papo sobre personagens num evento promovido pelo Itaú Cultural, a convite do Claudiney Ferreira. Eu acabara de lançar um livro de reportagens sobre personagens anônimos, A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, 2006). Foi uma ótima experiência. Desde então, tenho acompanhado mais a programação do Itaú Cultural como curiosa. No início desse ano, o Claudiney me ligou para conversar sobre a proposta da oficina. Combinamos um café numa esquina do bairro Higienópolis, em São Paulo, e lá ele me contou sobre a idéia de fazer uma oficina de reportagem, com ênfase na construção de personagens. Eu adorei a idéia, mas não sabia se conseguiria conciliar a empreitada com meu trabalho na Época e com meus outros projetos paralelos. Entre eles, um documentário para montar. Eu sempre faço várias coisas ao mesmo tempo. Quando tomamos o tal café, eu estava saindo de férias por recomendação médica, estava seriamente estressada. Fiquei de dar a resposta na volta das férias. Mas não resisti e liguei aceitando no mesmo dia.
E a idéia de levá-la para a região Norte?
Foi justamente essa a parte que eu não resisti. Eu adoro o Norte do Brasil, vivi algumas das experiências mais extraordinárias da minha vida na Amazônia. Lá, mesmo quando é ruim, é bom. E os dois únicos estados do Norte que eu não conheço são Acre e Rondônia. Então, desde que o Claudiney fez o convite, fiquei com uma coceira na alma (e nos pés). Tive de aceitar. E estou muito animada. Vou ensinar o melhor do que eu sei, mas espero aprender muito com as pessoas de lá. Uma viagem como essa é sempre uma ótima oportunidade para atravessar a rua de si mesmo e ver o mundo – e a própria vida – de outros ângulos.

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