Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de assinatura de Decreto que institui a coleta seletiva Discurso da assinatura de Decreto que institui a coleta seletiva nos órgãos federais e anúncio de linha de crédito para catadores de materiais recicláveis Palácio do Planalto, 25 de outubro de 2006 Meu caro Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Nossa querida ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, Nosso querido companheiro Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego, Meu caro Sérgio Machado, ministro da Ciência e Tecnologia, Meu caro Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência da República, Meu caro Tarso Genro, da Secretaria de Relações Institucionais, Meu caro Ivan Ramalho, interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Meu caro Demian Fiocca, presidente do BNDES, Meu caro Waldemar Wirsig, representante no Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Meu caro Marcelo Garcia, presidente do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social e secretário municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, Meu caro companheiro Luiz Henrique da Silva, representante da Associação de Catadores de Papel e Papelão Recicláveis, Meu caro companheiro Sebastião Nicomedes de Oliveira, representante do Movimento da População em Situação de Rua, Meus amigos e minhas amigas, O que nós estamos presenciando aqui hoje, mais que um ato de assinatura de Decreto e de assinatura de convênios, é um ato de cidadania. Em 1994, eu tive a oportunidade de ir à África do Sul visitar o então eleito presidente Mandela. Quando cheguei, às 8 horas da manhã, no Palácio de Governo da África do Sul, uma quantidade enorme de mulheres e homens estava andando em volta do Palácio, olhando as paredes. O prédio estava aberto para a comunidade, para o povo entrar, e o povo entrava e não tocava em nada, mas olhava, olhava, olhava. Eu perguntei ao presidente Mandela porque aquele povo olhava com tanta admiração um Palácio, as paredes. E o presidente Mandela me disse: "Lula, essa gente, durante décadas, não podia nem passar aqui em frente. Um negro passar na frente do Palácio do Governo da África do Sul, até então governado pelos brancos, era quase um atentado aos bons costumes estabelecidos naquela época na África do Sul". Então, as pessoas queriam ver, queriam olhar, não queriam nem tocar, só queriam ver. Hoje, quando ouvi o discurso dos dois companheiros - me permitam chamá-los de companheiros também e não de Excelência - eu fiquei pensando quantas pessoas já passaram por este Palácio. Certamente, na história política do nosso País, já passaram muitos empresários, muitos banqueiros, muitos governantes de vários países do mundo. Certamente por aqui já passaram príncipes, já passaram reis, já passaram rainhas, já passaram primeiros-ministros, já passaram xeiques, já passaram muitas e muitas personalidades. Mas a democracia brasileira e a conquista da cidadania brasileira não seriam completas se por aqui não passassem outras personalidades que compõem a população humana e que, muitas vezes, têm trabalho até mais importante que muitos dos que já passaram por aqui, mas que como essa profissão não está catalogada nos anais de quem faz a anotação das profissões chiques, essas pessoas nunca foram lembradas para entrar no Palácio de Governo, nem aqui, nem em muitos países do mundo. Não que a gente não queira que outros passem por aqui, por aqui precisam continuar passando os reis que visitarem o Brasil, os príncipes que visitarem o Brasil, as rainhas que visitarem o Brasil, os empresários brasileiros e estrangeiros, os banqueiros brasileiros e estrangeiros, os trabalhadores organizados, os fazendeiros, os trabalhadores sem-terra, mas é preciso que penetre neste Palácio a sociedade brasileira como um todo. E eu penso que hoje nós culminamos, uma parte a mais, do avanço da
democracia no nosso País. Um gesto como este possivelmente não seja medido agora, leva tempo para que a sociedade mature e compreenda o significado, às vezes, até maior do que a conquista. Em que momento da história um catador de papel pôde usar a tribuna num palácio governamental? Em que momento da história um morador de rua pôde utilizar a palavra no Palácio presidencial em qualquer país do mundo? Por isso que o Brasil, aos poucos, vai sedimentando práticas e exemplos que podem ajudar na conquista da democracia no mundo. Porque também é preciso uma evolução da sociedade para compreender a função de cada um, para jogar no lixo o preconceito. O preconceito não pode ser reciclado, ele tem que ser exterminado da cabeça das pessoas. Uma vez eu estava na frente da Assembléia Legislativa de São Paulo, em frente daquele memorial que tem lá, e eu vi uma cena que, se eu tivesse uma máquina, teria registrado: um "bacana", daqueles que anda num carro último tipo, simplesmente abriu o vidro e jogou uma latinha de cerveja vazia para fora. Atrás dele, um companheiro, com uma carroça, humildemente pegou aquela latinha e colocou dentro de sua carroça. Porque para ele, aquela latinha era um estorvo dentro de seu carro, afinal de contas, ele já tinha bebido o conteúdo daquela latinha. Para um catador de material reciclável, aquela latinha significava a possibilidade de levar um pão para que o seu filho pudesse comer no dia seguinte. Essa diferença de comportamento, dos mais diferentes segmentos da sociedade, só pode ser resolvida se for compreendido que nós somos diferentes em espécie humana e em funções, que cada um tem uma utilidade, e foi para isso que nós fomos colocados no mundo. A compreensão de que o trabalho de um homem ou de uma mulher, que anda com uma carroça na rua, colhendo a sujeira que nós fazemos, precisa ser reconhecido com uma atividade nobre, como é a atividade de um trabalhador dentro da Volkswagen, onde o Marinho trabalhou durante tantos anos, ou de alguém que está dentro de uma sala, dando aulas, ou de alguém que está num palácio fazendo um decreto ou assinando uma lei. É apenas a compreensão da importância de cada um de nós nesta sociedade tão complexa e tão heterogênea. Compreender que as pessoas que vão morar na rua, não vão morar na rua porque querem. Depois, podem até ter disposição de ficar lá, mas é preciso que a gente se preocupe em saber sua origem. Por que alguém que já teve carteira profissional assinada e que já trabalhou em uma fábrica, de repente a gente encontra dormindo embaixo de um viaduto, dormindo em cima de um banco de praça ou dormindo embaixo de um buraco, repartindo o seu sono com ratos, pela periferia dos grandes centros urbanos?O papel da sociedade é compreender essa diversidade que existe na sociedade brasileira, diversidade política, cultural, mas, sobretudo, a diversidade social. Então, este Ato que nós fazemos aqui no Palácio, com a assinatura do Decreto, é muito mais uma demonstração de que este País caminha, a passos largos, para que todos nós sejamos irmãos de verdade, para que todos nós sejamos irmãs de verdade, para que todos nós deixemos o preconceito de lado, deixemos a pequenez de lado, que muitas vezes toma conta do ser humano, veja que todos nós somos iguais. Apenas, em determinados momentos históricos, estamos em posições diferentes, em postos sociais diferentes. Eu quero dizer para vocês da minha alegria, do meu prazer, da satisfação de poder ter vivido o dia, como Presidente da República, em que neste Palácio adentrou mais uma parcela da sociedade brasileira marginalizada para afirmar, a quem quer que seja, que este País não tem dono e não terá mais dono. O dono dele são os 190 milhões de brasileiros. Por isso, eu quero agradecer a presença de vocês aqui, porque nos dois discursos eu vi também uma coisa nobre. Normalmente algumas pessoas podem pensar: "bom, a pessoa trabalha colhendo papel na rua, não sabe nem falar". E vocês viram o discurso finíssimo do Mineiro, e só podia ser mineiro, que foi ali na frente, quase nos obrigando a chamá-lo de Excelência. E depois nós vimos um morador de rua enrolado na coisa mais sagrada que o povo de uma pátria tem, que é a sua bandeira, fazer um discurso que poderia ser feito, talvez não com a mesma qualidade, por qualquer intelectual deste País. E aí, Patrus e demais ministros que têm trabalhado nesta área, eu lamento não estar vendo o companheiro Júlio Lanceloti aqui no nosso meio, que eu sei que é um guerreiro de todas as horas junto conosco nesta parada. Eu queria dizer que o que vocês fizeram aqui hoje foi uma demonstração de que a parceria, a relação democrática, cordial, mantendo a autonomia dos Movimentos, mas que pode ser feita entre o Estado brasileiro, uma prefeitura, um governo de estado, o governo federal e vocês, só pode trazer bons resultados. Essas conversas, esses cursos, essa formação, eu vi aqui ele falar em gestão. Ele não falou na transversalidade porque talvez não tenha ido ninguém falar em transversalidade. Mas, gente, o que nós vimos aqui é o seguinte: não existe cidadão superior ou cidadão inferior, não existe o bacana e o não-bacana, o que existe é que na hora em que o ser humano tem uma chance, venha de onde vier, ele agarra essa chance e prova que tem tanta competência de sobreviver com dignidade quanto qualquer outra pessoa. O que vocês fizeram aqui, hoje, eu não tenho dúvida nenhuma de que foi mais uma pequena lição de vida para quem governa este País,
olhar para todos sem distinção, sem preconceito religioso, sem preconceito de raça, sem preconceito de religião, sem preconceito de função, sem preconceito político. Antes de tudo, vocês são tão ou mais brasileiros do que muitos que pensam que vocês não são nada. Meus parabéns. Parabéns, Patrus. Parabéns, Marina. Parabéns, Marinho. Parabéns, Demian.E que Deus continue dando forças a vocês e, sobretudo, que Deus continue nos transformando, cada vez mais, em seres humanos humildes, para que a gente não esqueça nunca de onde viemos e onde queremos chegar. Muito obrigado, gente! http://www.mds.gov.br/arquivos/discurso-do-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-na-cerimonia-de-assinatura-de-decreto-que-institui-a-coleta-seletiva/html2pdf
Escrito por nicomedesoliveira às 07h49
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