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Blog de nicomedesoliveira
 


link abre o video atualizado.
 http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL696219-15607-157,00.html
 

É possível viver sem arte?


A arte é condição da existência. É somente por meio da arte que a vida humana se torna possível. Não apenas a arte dos artistas, mas a atividade criadora, presente em tudo o que vive. O homem e a vida como obra de arte é o tema do último capítulo de "Ser ou Não Ser".
A 29ª Bienal de São Paulo propôs a 118 artistas de todo o mundo o tema "Viver Junto". Árabes, judeus, afegãos, entre outros, criaram mais de mil obras para discutir a dificuldade de diálogo que existe hoje em dia entre pessoas e culturas. 
"Que espaço é esse onde a gente vive junto? Quem é nosso vizinho, com quem a gente dorme, com quem a gente acorda? Esse ‘como viver junto’ traz a questão da distância, porque eu acho que é a grande crise que a sociedade contemporânea está enfrentando. As pessoas estão se matando sem dialogar”, comenta Lisette Lagnado, curadora-geral da Bienal de São Paulo.
 
As bicicletas de Jarbas Lopes, um dos artistas convidados para a Bienal, falam da importância das ruas, de como devemos retomar estes espaços de convivência que estamos perdendo.
“E a rua, claro, é o grande cenário, é a grande aventura, porque aqui é espaço livre, espaço aberto”, diz o artista plástico Jarbas Lopes.
Mas outros artistas não têm uma visão tão otimista sobre a possibilidade de "viver junto". 
Um artista suíço, por exemplo, relaciona fotos de corpos mutilados - em uma referência à violência tão presente em nossas cidades - a livros e instrumentos de trabalho, como alicates, martelos. O que ele parece perguntar é: "para que serve a arte, a ciência, o pensamento, se os homens continuam se destruindo dessa forma?".
“A gente está vivendo um momento muito difícil, um momento em que as promessas são vazias. Eu acho que ética tem sido uma palavra surrada pelas pessoas”, opina Lisette.
A ética, como você já viu aqui, é uma discussão a respeito dos valores morais. Mas como surgem estes valores? É o que pergunta o filósofo alemão Nietzsche.
Os valores morais, ele diz, não são eternos. Foram criados pelos homens. As coisas sozinhas não têm valor. Somos nós que atribuímos esse valor a elas.
Por exemplo: um monte de barro, sem forma, a princípio pode não ter muita importância. Mas se é do mesmo barro que fazemos moringas, bonecas e outros objetos, então, ele passa a ter outro valor. É isso o que acontece na comunidade de Maragogipinhos, Bahia, um dos maiores pólos de cerâmica do Brasil.
“Uma comunidade totalmente vivendo desse trabalho, passando de pais a filhos, e assim sucessivamente”, diz o artesão Edvaldo Conceição.
 
Se os valores são criados, moldados por nós, diz Nietzsche, então, eles precisam ser constantemente reavaliados.
“Eu percebi que estava vivendo em um mundo de ilusão. Eu concluí que minha vida era um nada”, conta Sebastião Nicomedes, ex-morador de rua.
Sebastião Nicomedes veio do interior de São Paulo. Pintava letreiros e instalava anúncios luminosos. Um dia, enquanto pendurava uma placa no segundo andar de um prédio, caiu e ficou gravemente ferido.
Quando recebeu alta do hospital, Sebastião descobriu que havia perdido todo o dinheiro que tinha. E mais: fora abandonado pela noiva e pela família.
“A única coisa que me restou foi uma bandeira, que eu tinha desde 2002, uma bandeira do Brasil. Não tinha mais nada”, relata.
E assim, ele se viu obrigado a morar na rua. “Por aqui eu dormia e, quando chovia, eu vinha sempre e procurava um toldo, sempre uma cobertura para estar embaixo”.
Sebastião passou a ver a vida de uma perspectiva totalmente diferente. “Olha, duas coisas que nunca tinha notado: morador de rua e carroceiro. Não notava que eles existiam. Ser uma pessoa na rua, é difícil isso, né? Você está isolado da sociedade, né?”.
Para Nietzsche, os valores que nossa civilização ocidental criou e cultivou afastaram o homem da vida. Nossa cultura substituiu a vida pela palavra. Enquanto falam e pensam, os homens não vêem o que acontece diante dos olhos.
“Existe dentro da grande metrópole, existe uma cidade sem voz e sem vez. As pessoas não te olham mais, é horrível você estar dormindo e alguém pular por cima de você. Porque é tão banal, ‘tá morando aí’, nem desviam para passar”, reclama Sebastião.
A promessa do paraíso fora deste mundo, de um futuro melhor além do nosso tempo, acabou nos deixando cada vez mais longe da única coisa que temos em nossas mãos: o instante, o presente.
Para Nietzsche, afastar o homem da vida o enfraquece e diminui. Mas o que é a vida, isto que temos aqui e agora?
A vida é um processo constante de expansão. Viver é expandir, ir além de si mesmo, superar-se. Por isso, as quedas, os obstáculos têm também um valor positivo, porque nos obrigam a ser melhores e maiores do que somos.
“Estava escrevendo um dia e um senhor chegou para mim e falou: ‘Você é letrado, rapaz, você podia escrever alguma coisa para mudar a situação da gente aqui, que o negócio não está bom’. Aquela questão de ele falar ‘escreve alguma coisa’ me motivou bastante”, conta Sebastião. “Comecei a escrever eles, sobre mim, sobre o que eu via, sobre esse mundo que ninguém consegue ver e não se importa muito”. 
O resultado foi a peça "Diário dum carroceiro", em cartaz no circuito profissional de São Paulo.
A força criadora está presente não só no homem, mas em tudo o que vive. Por isso, criar não é uma escolha, não depende da nossa vontade. Este é o movimento da natureza, do mundo. A vida é um fenômeno artístico.
E o homem cria, porque dá vazão a este processo. A arte, como produto humano, é uma elaboração dessa força que existe na vida. É possível levar infinitamente adiante esta força criadora e moldar obras de arte grandiosas.
“Eu quero lançar um livro, eu quero fazer um roteiro de um filme, quero fazer um filme bom, sabe? Quero trazer um Oscar para o Brasil!”, sonha Sebastião.
E o homem pode também tomar a si mesmo nas mãos e fazer da vida uma obra de arte. “Hoje eu acho que sou um ser humano completo”, acrescenta ele.
Para Nietzsche, o homem não é um animal racional. Ao contrário, é um animal artístico. Reaproximá-lo da vida é reacender sua capacidade criativa, que aumenta sua força.
“Está tudo muito pronto. Tudo de R$ 1, tudo de R$ 1,99. As pessoas querem comprar pronto. Ninguém quer fazer, ninguém quer criar”, reflete o ex-morador de rua.
Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina. Era o que Nietzsche dizia. O conflito, as perdas são inevitáveis. Por isso, não podem ser um mal. Ao contrário: estimulam a vida.
Somente teremos uma sociedade ética quando conseguirmos moldar um homem forte, capaz de lidar com a dor e as frustrações e transformá-las em fonte de vida e ação.
“Dessa maneira eu sobrevivi, fiquei forte para poder seguir e contar, contar a minha história na vida, porque a história da gente não pode acabar assim, né, do nada, de repente”, orgulha-se Sebastião.

 



Escrito por nicomedesoliveira às 07h46
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http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/09/16/os-moradores-de-rua/

Os moradores de rua.

Por Monier

Nassif, aproveitando a revogação da lei da mordaça em SP, e também aproveitando que este é um excelente espaço interdisciplinar e interinstitucional, gostaria de sugerir uma questão [e já pedir desculpas pelo tamanho final deste texto].

Tive uma oportunidade rara esta semana de participar de um “sarau” (serão) com dois mendigos, nas imediações do Largo São Francisco. Duas coisas me impressionaram: um deles sabia mais geografia do que muitos dos bacharéis que estavam por ali – e que não eram ruins. O sujeito sabia detalhes de cidades, regiões geográficas, rios, e demais características de toda São Paulo, Minas Gerais e região sul, com muita precisão.

Também falou detalhes sobre o Paraguai, mas meu conhecimento não vai até aí para poder confirmar se ele sabia o que dizia ou se era alguma fantasia. Só posso dizer que ele sabia alguma coisa de espanhol, e ficou explicando questões sobre a origem da palavra no tupy.

A outra coisa que impressionou – e diretamente relacionada à questão que gostaria de propor – diz respeito a um deles que, tendo pouco mais de 30 anos, dizia que antigamente (entendi como algo ao redor de um década) era mais fácil conseguir auxílio do estado para o morador de rua. Especificamente, relatava que quando tinha seu padrasto vivo era mais fácil conseguir auxílio do estado em questões de internação para desintoxicação, e que hoje está tudo muito difícil.

A minha curiosidade é saber se houve mudança recente na política de estado para os moradores de rua. Por exemplo se a existência de familiares facilita a internação, ou se não existe nada neste sentido. Ou, então, se a rede de proteção social está enfraquecendo em SP – notei um aumento no número de moradores de rua pelo centro nos últimos meses, além de uma maquiagem com o “SP Protege” em que pese não ter rigor científico nenhum a observação individual.

Não tenho lido nada substancial a respeito disso na imprensa – exceto alguns artigos sobre a rampa antimendigo, mas que também não era profundo. É óbvio que a política do governo atual em SP é menos orientada para a questão social do que a dos partidos concorrentes. Contudo, a mudança descrita pelo morador foi no período de um mesmo governo.

Portanto, sugiro um artigo bem escrito a respeito deste tema, aproveitando que entre os leitores deve haver assistente sociais, psicólogos, secretários de saúde, pedestres do centro, etc, e aproveitando que é um problema mal resolvido, e que atinge a todos, e principalmente porque a discussão se dá em alto nível por aqui.

Acho a questão importante porque também não gosto de mendigos na porta de casa, mas se eles tiverem meios para se tratarem do problema dos tóxicos, já é um problema a menos: a violência trazida pela fissura dos dependentes.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Políticas Sociais Tags: ,



Escrito por nicomedesoliveira às 13h40
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